Mães onde a vida sofre

Mulher-presa.jpgNo dicionário, o termo “penitenciária” é descrito como um presídio especial a que se recolhem os condenados às penas de reclusão. Nesse local, o estado, ao mesmo tempo que os submete à sanção das suas leis punitivas, ministra-lhes instrução e educação moral e cívica. Tudo isso visando que, assim, possam regenerar-se ou reabilitar-se para o convívio na sociedade. No entanto, as casas prisionais brasileiras não regeneram, tampouco ressocializam; ao contrário, o que se vê nos presídios é uma nova educação para o crime.

No RS, são 139 casas prisionais, que abrigam 35.804 detentos, segundo levantamento do final do mês de abril. Desse total, mais de 33.000 são homens. Caxias do Sul vive uma situação de superlotação nas duas unidades prisionais. São homens e mulheres, milhares de sonhos e uma grade que bloqueia suas realizações.

Ao amanhecer das quartas-feiras, sábados e domingos, em meio a conversas e troca de perfumes e maquiagem, um grupo de mulheres aguarda ansioso o início das visitas em frente à Penitenciária Regional de Caxias do Sul, em frente ao Hospital Geral. Muitas chegam cedo, por voltas das 6:30h e por conta das revistas, já vão formando fila, e evitando atrasos. A entrada está liberada a partir das 9h.

É nas primeiras horas da manhã de cada visita que dona Isolda (nome fictício), 54 anos, mãe de Eduardo (nome fictício) 30, preso há seis anos, acusado de tráfico de drogas e receptação de veículos, chega ao presídio. Ela trazia bolos decorados e tortas salgadas, além de outras culinárias típicas da família, e as via sendo destruídas ao ponto de quase virarem farelos, durante as revistas na entrada da penitenciária. “Trazia um pouco do que ele comia em casa, para lembrar do conforto que tinha entre a família, mas via minha dedicação despedaçada”, confessa, com tristeza no rosto.

A famosa frase “bandido bom é bandido morto” é contestada por Maria Helena (nome fictício), 51 anos, mãe de Jairo (nome fictício), 22, condenado a três anos por tráfico de drogas e furto de veículos. “Todo mundo fala que deveriam matar os presidiários, porque só gastam dinheiro. O que acontece é que as pessoas falam até o momento que não acontece com alguém da família delas. Você não imagina a dor de ter um filho preso”, relata.

Se os homens recebem visitas de mães, namoradas, esposas e até dos filhos, as mulheres que estão detidas são esquecidas e abandonadas pela própria família. Muitas das detentas são filhas de pais separados e tiveram que criar irmãos menores, ou ficaram abandonadas à própria sorte e caíram no mundo do crime.

Além de não serem lembradas pelas próprias famílias, as mulheres não o são nem pela comunidade. Muitos sequer sabem que Caxias do Sul conta com ala penitenciária feminina. A Igreja, por sua vez, mantém ativa e atuante a Pastoral Carcerária nas duas casas prisionais de Caxias do Sul. Semanalmente, os homens e mulheres que estão reclusos recebem a visita de agentes voluntários.

Muito ainda precisa ser feito. De acordo com um levantamento da Superintendência dos Serviços Penitenciários do RS (Susepe), no final de 2016, o índice de pessoas que saem dos presídios e retornam ao crime é de 69,51%.

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