Zeladora: sinônimo de carinho e cuidado

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A região serrana do Rio Grande do Sul se desenvolveu tendo como a fé como um de seus principais esteios. Os descendentes de alemães, italianos e poloneses, ao emigrarem de suas terras e se estabelecerem na região, logo trataram de erigir os primeiros capiteis e oratórios. Os católicos que participavam da missa, celebrada em latim, costumavam rezar o terço durante o ritual, uma vez que não sabiam proferir palavras naquele linguajar.

Durante o período das imigrações, em 1888, na cidade equatoriana de Guaiaquil, o cônego José Maria Santistevan iniciou a chamada “visita circulante do Imaculado Coração de Maria”, hoje conhecidas como capelinhas da visita domiciliar. Do Equador, essa devoção mariana foi levada para outras nações latino-americanas, caribenhas e para a América do Norte. Além disso, chegou à Europa e de lá foi à Ásia, Áfria e Oceania.

Tal costume de prover a visita do Imaculado Coração de Maria entre as famílias cristãs chegou ao Brasil em 1914. A primeira instalação da visita domiciliar aconteceu em Belo Horizonte (MG). Anos depois, já havia se espalhado por diversas regiões do país. Em Caxias do Sul, introdução dessa prática se deu em julho de 1948. Na época, dona Clélia Manfro visitava seguidamente sua irmã Égide, em Curitiba (PR). Na capital paranaense, já estava enraizada tal devoção ao Imaculado Coração de Maria. Católica Fervorosa, Clélia trouxe a devoção para o município.

Fez contato com o bispo diocesano, Dom José Baréa e com o padre Ernesto Brandalise. Recebeu a aprovação dos mesmos e, com o auxílio de zeladoras do Apostolado da Oração, organizou a primeira capelinha. Com o decorrer do tempo, a aceitação da capelinha pelas famílias caxienses cresceu e a devoção espalhou-se por toda a diocese caxiense.

No bairro Santa Catarina, esta prática teve início em fevereiro de 1950, quando dona Clélia contatou sua amiga Graciema Fiorelli e ambas organizaram a primeira capelinha. Quatro anos antes de ser elevada a Paróquia, a capela Santa Catarina possuía a sua primeira zeladora.

Hoje, a paróquia conta com um número expressivo de zeladoras, mulheres em sua grande maioria. Atualmente são 224 zeladoras e dois zeladores, divididos nas onze comunidades atendidas. Somente no bairro Santa Catarina, são 64 capelinhas do Imaculado Coração de Maria.

Zeladora desde maio de 1998, Nelsa Dolores Franzoi, 69 anos, acredita que sua missão é uma preciosidade. Recebeu o convite de uma vizinha – Romilda DeDavid que a havia convidado para “ajudar” no cuidado e zelo das famílias que recebiam a capelinha. No entanto, com o passar do tempo, dona Romilda lhe confiou a missão de continuar a propagação da fé mariana nas proximidades de sua casa.

Nelsa lembra, com carinho, dos encontros preparatórios para o Natal e Páscoa. “Nós nos reuníamos em três ou quatro zeladoras e lotávamos os locais. Muitas famílias participavam”, lembra. Para cultivar os laços de afeto criados com vizinhança, um grupo de famílias se reúne mensalmente para rezar o terço.

Nomeada coordenadora da equipe das zeladoras e zeladores da Paróquia em 2015, Nelsa se orgulha da missão desenvolvida. “As pessoas falam que é um trabalho muito bonito, que querem continuar recebendo a capelinha, além dos encontros que a gente faz, apesar da diminuição do número de participantes”, comenta.

Criar vínculos de amor e afeto demonstram como uma pessoa é importante para outra. Isso é algo que a coordenadora destaca com enorme carinho. “Uma das pessoas que recebia a minha capelinha mudou de endereço, foi para a outra rua, mas continuou a querer receber a capelinha de mim. O filho dela, tinha oito anos quando fazíamos os encontros na casa deles. Ele era o ‘presepeiro’, montava presépios por toda a casa”, brinca. Estudante de medicina, o jovem reside na Austrália. “Quando vejo alguns dos que eram crianças na época que iniciamos os encontros, eles vêm me abraçar. É muito bom ter esse vínculo.

Perguntada se aceitaria novamente a missão de levar Maria às famílias, Nelsa não hesita. “Aceitaria, sim.” Ela acredita que, além de ajudar outras pessoas, fortalece a sua fé. “Eu tive um crescimento espiritual muito grande nesse período. Eu comecei me aprofundar mais nos assuntos, porque tinha que estudar os roteiros e as leituras bíblicas para os encontros. Isso também me envolveu e me fez participar muito mais da vida da Igreja”, conta.

Entre os objetivos da visita domiciliar do Imaculado Coração de Maria, está a união das famílias, a oração, a acolhida e o desejo de ser portadora da bênção de Deus. O pároco da Paróquia Santa Catarina, padre Renato Ariotti, lembra que a capelinha visita as casas em diferentes momentos, mas leva a esperança. “Muitas vezes a capelinha nos visita quando está tudo bem e muitas vezes, quando está tudo errado. Isso significado, sobretudo, que Maria acompanha seus filhos, mas sempre indica para a grande esperança da fé em Cristo”, pontua.

Desde 1998 realizando a missão de zelar pela capelinha de Nossa Senhora, Nelsa se sente um pouco “mãe” das famílias a ela confiadas. “Nesses tempos, duas vizinhas haviam se estranhado e não se falavam entre si. Também não levavam a capelinha uma à outra. Eu sentei com cada uma delas, ouvi as duas e pedi a ajuda do Espírito Santo para resolver o impasse. Conversamos e diluímos a mágoa. Hoje pela manhã, vi as duas conversando amigavelmente enquanto uma cuidava do jardim”, conta emocionada.

Zelar é sinônimo de cuidar e valorizar. Por isso, Nelsa Franzoi, ser zeladora é cuidar de Maria. “Cuidar de Nossa Senhora é uma missão muito especial confiada a cada zeladora, em especial para mim. Vendo a história de Nossa Senhora e saber que a gente está cuidando dela. É uma imagem, mas dentro dela existe todo o simbolismo da missão de Maria”, finaliza.

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